STRAWSON, Peter F.

Individuals. An Essay in decriptive metaphysics

Methuen, London and New York 1984

I. Conteúdo da obra

A obra pretende ser um ensaio de metafisica descritiva, como indica o sub-título, isto é una descrição da estrutura do nosso pensamento sobre o mundo, em contraste com a metafísica revisionária (revisionary), que tenta produzir uma estrutura melhor.

Divide-se em duas partes:

A primeira propõe-se apresentar um exame sobre a posição central que os corpos materiais e as pessoas ocupam entre os objectos singulares em geral, como os singulares básicos e fundamentais. Consta de 4 capítulos (Corpos materiais, Sons, Pessoas, Mónadas)

A segunda estabelece e procura dar uma explicação da conexão entre a ideia de um ser singular em geral e a de objecto de referência ou sujeito lógico; pode considerar-se como o exame das repercussões ou reflexos das teses desenvolvidas na primeira parte, no dominio da gramática, semântica e lógica.

No 1º capítulo (Bodies), Strawson caracteriza o ser dos objectos singulares básicos como sendo uma certa disposição única no espaço e no tempo de alguma forma ou modelo geral e em princípio repetível. Para cada particular deve haver essa forma ou modelo que é suficiente para proporcionar um princípio de identificação para todos os seres singulares que a exemplificam. A identificaçao radica, em última análise na sua localização numa estrutura espacio-temporal umitária de quatro dimensões. Nem toda a categoria de objectos é capaz de constituir esta estrutura, mas só aqueles que têm três dimensões com alguma duraçao no tempo (ou seja, objectos matériais, sensíveis). Sao estes os singulares que constituem a base da nossa estrutura conceptual.

Mas este esquema espacio-temporal é mesmo necessário para o nosso conhecimento dos objectos singulares e sua identificação? Para resnonder a esta questão, S. vai forjar a hipótese de um mundo puramente auditivo ( 2º cap. Sounds), do qual estivesse ausente a dimensão espacial. Poderá um individuo reduzido ao sentido do ouvido, ter algum esquema conceptual que lhe permita identificar objectos singulares, isto é sons determinados, singulares? A resposta de S. é a de que para tal seria necessária a reprodução de um esquema espacial nos termos sensoriais restritos de que dispõe o ser humano nessas condições. Esta reprodução, ou tradução do esquema espacial é possível em virtude de certas analogias auditivas (altura, timbre, tom de um som) com a ideia de distancia espacial.

No 3º capítulo, S. aplica a noção de identificaçao dos seres singulares à noção de pessoa: uma vez vista a possibilidade de identificar-os corpos materiais, através das referências espacio-temporais, trata-se agora de averiguar se é possívél, a partir daquelas coisas que normalmente atribuimos a nós próprios (acções, pensamentos, intenções, etc.), identificar o próprio Eu e distingu-lo dos outros. A pergunta equivale à seguinte questão: é possível um esquema conceptual que permita um sistema de singulares objectivos, mas no qual os carpos materiais não sejam os objectas básicos e fundamentais? Responder afirmativamente equivale, segundo S. a considerar possível o conceito de consciência pura individual — o eu puro — e a sua distinção entre "outros eu". Ao responder a estas questões S. faz uma crítica acertada quer ao dualismo cartesiano, quer ao solipsismo de Wittgenstein, concluindo pela unidade da noção de pessoa, noção que considera primitiva, anterior à noção de consciencia pura. Por isso, afirma S. (p. 104):

"o conceito de pessoa déve ser entendido como o conceito de um tipo de entidade tal que tanto os predicados que atribuem estados de consciência como os que atribuem características corporais são igualmente aplicáveis a uma entidade individual desse género"

0 capítulo seguinte pode ser considerado como a contra-prova da tese fundamental de S., com a refutação do sistema leibniziano assente na noção de mónada. Este vai contra a tese de S. precisamente porque a mónada, apesar de imaterial, inextensa, é absolutamente discernível de todas as outras mónadas. Para cada uma há uma descrição em termos puramente gerais, universais que se aplica unica e exclusivamente a essa mónada. Segundo Leibniz, o que é único para cada mónada é o seu ponto de vista. S. tenta mostrar com exemplos do campo visual, a possibilidade de um universo totalmente simétrico, repetitivo, onde poderia haver pontos de vista numericamente diferentes, mas qualitativamente indiscerníveis (ex. do tabuleiro de xadrêz). Com isto pretende S. demonstrar que os diferentes pontos de vista não implicam com necessidade lógica a discernibilidade das mónadas, e assim, a possibilidade da sua individuaçao assenta unica e simplesmente num princínio teológico — a vontade livre de Deus de que não haja reduplicacão. Para S. uma ontologia que não permita entidades espaciais nem temnorais não pode nunca justificar nenhum tipo de objectos singulares.

Na II Parte, S. procura comprovar a "tendência" geral para a distinção e conexão entre sujeito e predicado, reflexo ou paralelo lógico-gramatical da relação singular-universal. Segundo o critério gramatical, o que é atribuido (predicado) é introduzido por uma parte da frase que contem o simbolismo da asserçao; segundo o critério categorial, só os universais (nunca os singulares) podem ser predicados de S. procura uma explicação para esta distinção tradicional entre sujeito/predicado, na antítese básica entre a completude do ser singular, que serve de sujeito e a incompletude do universal. 0 carácter completo do singular manifesta-se claramente no modo como é introduzido na linguagem, através de uma proposição que pressupõe um facto real; o modo de introduçao de um universal, pelo contrário, manifesta a sua incompletude, pois faz-se através de uma proposição que deve apenas elucidar sobre o seu uso na linguagem.

A explicação do modo de introduzir os objectos singulares no discurso, parece levar a uma circularidade, senão viciosa, pelo menos indesejável, pois as proposições que introduzem estes objectos singulares, devem por sua vez conter algum singular, uma vez que se referem a um facto real. S. afirma que mais do que circularidade, há uma regressão até ao infinito, se não se encontrar no extremo dessa regressão algum outro tipo de proposição. É esse novo tipo de proposição que S. encontra no que denomina feature-placing statements (proposições que indicam tracos). Este universal (feature) não é um universal caracterizante (como vermelho, sábio, etc.), nem classificatório (sortal) (como homem, animal, etc.). Exemplos de feature-statements: "Chove", "há ouro aqui", "está a nevar agora". Seriam como proposições atómicas, básicas, não do tipo sujeito-predicado, a partir das quais, dando mais um passo se poderão formar os conceitos de individuais — de "neve" para "flocos de neve", de "ouro" para "barras de ouro", de "chuva" para "chuvadas", etc.

Conclusão: As noções de objectos materiais (bodies) e pessoas apresentam-se como noções básicas do ponto de vista da identificação, pois permitem um critério de identificação preciso, que se justifica nela referência a um esquema de um mundo espacio-temporal. Strawson atribui a posição central dos singulares no amplo sentido lógico da palavra ao facto de o singular se apresentar como o paradigma de um sujeito lógico. Aqui radica também a íntima conexão entre um individuo e a existência, que é o tema do último capítulo, onde a primazia da existência é atribuída aos corpos (objectos materiais) e pessoas. Éstas convicções, profundamente arraigadas na grande maioria das pessoas só se poderão justificar através da sua concordancia com o esquema conceptual que empregamos (cfr p. 247). A tarefa de S. nesta obra foi precisamente mostrar esta íntima e profunda concordância.

II. Apreciação crítica

S. constrói uma espécie de "ontologia do sensível", na qual atribui um lugar predominante aos seres singulares, concretos, sem no entanto negar radicalmente a existência dos universais, atributos, propiedades, etc. Neste sentido a sua ontologia é menos redutora, menos nominalista do que a de Quine, que com a sua célebre fórmula — "Ser é ser o valor para uma variável" acabará por reduzir os seres existentes aos individuos (os valores para variáveis). A pergunta ontológica de Strawson é mais abarcante: Quais as categorias mais gerais das coisas que tratamos como objectos de referência, como sujeitos de predicados e quais os tipos mais geráis de predicados — propriedades e relações — que utilizamos para falar desses objectos?

No capítulo Monads S. faz uma crítica acertada à noção de indivíduo em Leibniz, que de facto acaba por identificar individuo com espécie, ou pelo menos por transferir as dimensões da espécie para a mónada, o individuo no sistema leibniziano.

Toda a exploração de S. da antítese sujeito/predicado, correspondente a singular/universal leva a uma conclusão: a de que não se deve radicalizar essa oposição universal/singular chegando mesmo a contrapôr dois mundos à parte, antes se deve apontar a indissociável unidade entre ambos na realidade concreta. Numa perspectiva realista esta exploração encontraria o seu pleno sentido, evitando os múltiplos e bem conhecidos problemas das filosofias platonizantes.

A obra de Strawson presenta no entanto vários inconvenientes:

— Noção de "Metafísica descritiva" : para S. a Metafísica deverá limitar-se a ser uma descrição do Universo tal como nos aparece, isto é, não o Universo em si, mas os conceitos que constituem a estrutura conceptual segundo a qual concebemos o Universo. Se fizéssemos uma comparação tosca com Aristóteles, poderíamos dizer que a metafísica de S. corresponde apenas às Categorias, mas perspectivadas de um modo transcendental, isto é, não como os modos mais gerais do ser, mas os modos mais gerais de conhecer o ser, de acordo com os esquemas subjectivos do conhecimento humano.

— O horizonte kantiano está patente em toda a obra, embora S. não exprima nunca a sua filiação nem inspiração kantianas. No entanto esta influência poderá confirmar-se em escritos posteriores.

— Não se encontra, ao longo de todo o livro uma distinção nítida entre princípio de individuação e processos (cognitivos) de identificação e reidentificação de um objecto, o que compromete seriamente a noção metafísica de individuo. Como se pode ler na conclusão final a convicção da primazia ontológica do ser singular e a distinção entre universal/singular radica na sua concordância com o nosso esquema conceptual.

— No capítulo Persons, embora critique certeiramente o dualismo cartesiano e o solipsismo wittgensteiniano, S. não apresenta de uma forma positiva o fundamento do conceito de pessoa, limitando-se a dizer que é um conceito originário, primário, anterior e fundante em relação ao conceito de consciência pura.

Leituras antídoto:

GEACH, P., Reference and Generality, Cornell University Press, Ithaca and London 1962

 Logic Matters, Basil Blackwell, Oxford, 1972. "Assertion", p. 254; "Identity Theory" p.238

SANCHEZ, León, Analisis proposicional y ontología Estudio a través de Strawson y Geach, Univ. de Murcia 1984

 "Existencia, Referencia, Identidad y Universales", Anuario Filosofico 1982 nº 2, p.221

MILLAN-PUELLES, A., Léxico Filosofico, Ed. Rialp, Madrid 1984

 "Persona" p.457; "Sustancia" p. 539; "Universales" p. 570

 

                                                                                                             M.C.S. (1988)

 

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